O gibão de Hermes
No Ving Tsun muito se fala de invisibilidade; no chute, soco, na preparação da próxima ação, mas como isso pode ser transposto para o dia a dia? Nesta tarefa temos a ajuda de um mestre, ou mais de um.
E, falando de mestres, Julio Camacho certa vez nos falou do poder incrustado na cultura brasileira, especialmente as que têm origens populares.
“ Mão livre vai a frente” pode ser visto como “clareou, chuta!” e assim vai. Nos diz o mestre.
E daí? E a invisibilidade? Seria estranho se eu ou qualquer pessoa pudesse falar com facilidade da invisibilidade, ou como seria invisível? Ainda assim existem pessoas que são capazes de ver o que não é possível para a maioria, são sem dúvidas pessoas com uma dotação especial.
Certa vez Coronel Alexandre, quando ainda era só "Xandu'' para seu pai, foi atrás da égua pampa e em uma de suas aventuras enfrentou um terreno hostil e uma onça para recuperar essa preciosidade da família.
Hoje a história será mais longa, e sejam francos se querem ouvir, pois não gosto de cacetear ninguém; se não houver oposição vou abrir a torneira e molhar tudo com palavras do próprio Coronel Alexandre.
Vou dizer aos amigos como arranjei este defeito no olho. E aí seu Firmino há de ver que eu não podia esquecer o espinheiro, está ouvindo? Prestem atenção, para não me virem com perguntas e razões como as de seu Firmino. Ora muito bem. Naquele dia, quando o pessoal lá de casa cobrou a fala, depois do susto que a onça tinha causado à gente, meu pai reparou em mim e botou as mãos na cabeça: — “Valha-me, Nossa Senhora. Que foi que lhe aconteceu, Xandu?” Fiquei meio besta, sem entender o que ele queria dizer, mas logo percebi que todos se espantavam. Devia ser por causa da minha roupa, que estava uma lástima, completamente esmolambada. Imaginem. Voar pela capueira no escuro, trepado naquele demônio. Mas a admiração de meu pai não era por causa da roupa, não. — “Que é que você tem na cara, Xandu?” perguntou ele agoniado. Meu irmão tenente (que naquele tempo ainda não era tenente) me trouxe um espelho. Uma desgraça, meus amigos, nem queiram saber. Antes de me espiar no vidro, tive uma surpresa: notei que só distinguia metade das pessoas e das coisas. Era extraordinário. Minha mãe estava diante de mim, e, por mais que me esforçasse, eu não conseguia ver todo o corpo dela. Meu irmão me aparecia com um braço e uma perna, e o espelho que me entregou estava partido pelo meio, era um pedaço de espelho. “Que trapalhada será esta?” disse comigo. E nada de atinar com a explicação. Quando me vi no caco de vidro é que percebi o negócio. Estava com o focinho em miséria: arranhado, lanhado, cortado, e o pior é que o olho esquerdo tinha levado sumiço. A princípio não abarquei o tamanho do desastre, porque só avistava uma banda do rosto. Mas virando o espelho, via o outro lado, enquanto o primeiro se sumia. Tinha perdido o olho esquerdo, e era por isso que enxergava as coisas incompletas. Baixei a cabeça, triste, assuntando na infelicidade e procurando um jeito de me curar. Não havia curandeiro nem rezador que me endireitasse, pois mezinha e reza servem pouco a uma criatura sem olho, não é verdade, seu Gaudêncio? Minha família começou a fazer perguntas, mas eu estava zonzo, sem vontade de conversar, e saí dali, fui me encostar num canto da cerca do curral. Com a ligeireza da carreira, nem tinha sentido as esfoladuras e o golpe medonho. Como é que eu podia saber o lugar da desgraça? Calculei que devia ser o espinheiro e logo me veio a ideia de examinar a coisa de perto. Saltei no lombo de um cavalo e larguei-me para o bebedouro, daí ganhei o mato, acompanhando o rasto da onça. Caminhei, caminhei, e enquanto caminhava ia-me chegando uma esperança. Era possível que não estivesse tudo perdido. Se encontrasse o meu olho, talvez ele pegasse de novo e tapasse aquele buraco vermelho que eu tinha no rosto. A vista não ia voltar, certamente, mas pelo menos eu arrumaria boa figura. À tardinha cheguei ao espinheiro, que logo reconheci, porque, como os senhores já sabem, a onça tinha caído dentro dele e havia ali um estrago feio: galhos rebentados, o chão coberto de folhas, cabelos e sangue nas cascas do pau. Enfim um sarapatel brabo. Apeei-me e andei uma hora caçando o diacho do olho. Trabalho perdido. E já estava desanimado, quando o infeliz me bateu na cara de supetão, murcho, seco, espetado na ponta de um garrancho todo coberto de moscas. Peguei nele com muito cuidado, limpei-o na manga da camisa para tirar a poeira, depois encaixei-o no buraco vazio e ensanguentado. E foi um espanto, meus amigos, ainda hoje me arrepio. Querem saber o que aconteceu? Vi a cabeça por dentro, vi os miolos, e nos miolos muito brancos as figuras de pessoas em que eu pensava naquele momento. Sim senhores, vi meu pai, minha mãe, meu irmão tenente, os negros, tudo miudinho, do tamanho de caroços de milho. É verdade. Baixando a vista, percebi o coração, as tripas, o bofe, nem sei que mais. Assombrei-me. Estaria malucando? Enquanto enxergava o interior do corpo, via também o que estava fora, as catingueiras, os mandacarus, o céu e a moita de espinhos, mas tudo isso aparecia cortado, como já expliquei: havia apenas uma parte das plantas, do céu, do coração, das tripas, das figuras que se mexiam na minha cabeça. Refletindo, consegui adivinhar a razão daquele milagre: o olho tinha sido colocado pelo avesso. Compreendem? Colocado pelo avesso. Por isso apanhava os pensamentos, o bofe e o resto. Tenho rolado por este mundo, meus amigos, assisti a muita embrulhada, mas essa foi a maior de todas, não foi, Cesária? — Foi, Alexandre, respondeu Cesária levantando-se e acendendo o cachimbo de barro no candeeiro. Essa foi diferente das outras. — Pois é, continuou Alexandre. Só havia metade das nuvens, metade dos urubus que voavam nelas, metade dos pés de pau. E do outro lado metade do coração, que fazia tuque, tuque, tuque, metade das tripas e do bofe, metade de meu pai, de minha mãe, de meu irmão tenente, dos negros e da onça, que funcionavam na minha cabeça. Meti o dedo no buraco do rosto, virei o olho e tudo se tornou direito, sim senhores. Aqueles troços do interior se sumiram, mas o mundo verdadeiro ficou mais perfeito que antigamente. Quando me vi no espelho, depois, é que notei que o olho estava torto. Valia a pena consertá-lo? Não valia, foi o que eu disse comigo. Para que bulir no que está quieto? E acreditem vossemecês que este olho atravessado é melhor que o outro. Alexandre bocejou, estirou os braços e esperou a aprovação dos ouvintes. Cesária balançou a cabeça, Das Dores bateu palmas e seu Libório felicitou o dono da casa: — Muito bem, seu Alexandre, o senhor é um bicho. Vou botar essas coisas em cantoria. O olho esquerdo melhor que o direito, não é, seu Alexandre? — Isso mesmo, seu Libório. Vejo bem por ele, graças a Deus. Vejo até demais.
Sejam mais uma vez bem-vindos ao 108 Pétalas, a sua claque de amor para espantar o trivial, e vaiar a má sorte!
Hoje é a data mais importante do ano, aniversário da colíder do Clã Moy Jo Lei Ou, a Si Mo de muitos, e minha também, Marcia Moura. Si Mo é original de Xinguara, que seria algo próximo de “pessoas que moram no Xingu”; por sua vez o nome Xingu ainda está em estudo, e uma possibilidade etimológica muito aceita entre os estudiosos é “morada dos deuses”. Nada mais justo para um periódico que já falou de deuses anteriormente abordar o tema com o jeito brazuka de contar formidáveis lendas que dariam inveja ao meu tio Charles.
O motivo dessa escolha pode ser mais claro para os que tiveram a sorte de conhecê-la, Si Mo vê e lê com clareza o que está no campo oculto para a maioria, ela realiza intervenções sutis usando muitas vezes apenas sugestões que parecem ser o sopro de uma ideia. Sim, como notaram, é por este motivo que eu disse que podemos ter mais de um mestre para muitas ações.
Hoje não é dia de estender em desdobramentos possíveis e outros óbvios da dualidade feminina e masculina, vanguarda e retaguarda, yin e yang, já está dito.
Hoje é dia só de desejar felicidade à Si Mo!
Si Mo, um enorme beijo!
PS: Espero que vocês voltem na reprise da data mais importante do ano ainda este ano.
Abraço, Milleny!



