#002 Casa Arrumada
Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida…
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar.
Carlos Drummond de Andrade
Sejam mais uma vez bem-vindos ao 108 Pétalas, o seu veículo de desconexão com o trivial.
Interrompi o fluxo programado de lançamentos de postagens para dividir um importante acontecimento; hoje o Clã Moy Jo Lei Ou conta com mais uma nova casa. Meses atrás anunciamos que temporariamente não contaríamos com um endereço físico na região da Barra da Tijuca em virtude dos acontecimentos de 2020.
Aguardamos o momento oportuno para ter uma nova unidade, também na Barra da Tijuca, que contemplasse os elementos positivos já contidos na unidade anterior, e que pudesse abarcar outros elementos que a unidade anterior não nos atendia na plenitude que necessitamos.
“Não há lugar como o nosso lar!”, diria Dorothy Gale. A versão em Português da icônica frase da personagem de O Mágico de Oz (1939) é frequentemente usada para expressar alívio quando retornamos para casa, ou ainda quando nos sentimos seguros. Sem diminuir a importância do local físico de prática, seguimos nos últimos meses praticando remotamente ou ainda com grupos reduzidos, para mim fica claro que o lar é onde estamos. Você habita em qual lugar? Hoje houve a primeira sessão na sede do Clã Moy Jo Lei Ou dentro do novo espaço, disse Claudio Teixeira (esquerda) ao compartilhar conosco as imagens deste novo marco, junto de Guilherme Farias e Carmen Maris.
O Kung Fu de Carlos Drummond de Andrade nos brinda com um lindo poema que, ao meu ver, é muito alinhado com a prática; a valorização do simples, do fazer bem feito, mas sem artificialidade. E se com isso a sua casa tiver imperfeições? Não importa.





